3.11.15

tentando entender, parte 5

Outro dia, eu estava lendo uma entrevista com o pediatra Daniel Becker e três coisas nesse texto chamaram a minha atenção:

Primeiro, quando ele fala sobre a "superproteção da infância". Porque essa é uma bandeira que levanto faz muito tempo. Nunca fomos os pais que ficam empoleirados no filho, vigiando tudo, vendo o potencial perigo iminente em cada coisinha. E fazemos isso por convicção de que essa é a melhor maneira de ele ter uma infância rica. O que me deixa triste é que alguns pais nos olham como se fôssemos os loucos desligados e preguiçosos que não se preocupam com o bem estar do filho, que "não cuidam direito", chegando ao ponto de alguns não deixarem crianças sob o nosso cuidado. Nunca expus meu filho a uma situação de real risco, somos cuidadosos sim, mas ele tem que aprender a se virar sozinho, a se relacionar sozinho. Aquela coisa, de olhar de longe, sabe? Em alguns lugares fico mais tranquila, em outros fico mais atenta.

Segundo, sobre o TDAH e a ritalina. Em qualquer lugar sério que você vá ler sobre o TDAH, é informado que atinge cerca de 3 a 5% das crianças. Tiramos disso que não é uma doença tão comum. Entretanto, parece que a cada esquina encontro alguém diagnosticado com isso. Meu filho está no momento fazendo testes para diagnosticar a doença. É estranho eu me sentir insegura quanto ao possível resultado? É estranho eu ficar insegura quanto à necessidade do medicamento? Cheguei a fazer um teste em um site: ele teria que se enquadrar em 6 dos 9 primeiros itens e em 6 dos 9 últimos para ser considerada a possibilidade do déficit de atenção e da hiperatividade, respectivamente. Entretanto, marquei 6 itens forçando muito no primeiro caso (1,2, 3 e 8 com certeza, 6 e 9 ainda tenho minhas dúvidas se chega a ser "bastante") e o mesmo no segundo caso (10,11,12 e 18 com certeza, 15 e 17 também tenho minhas dúvidas se chega a ser "bastante").

Terceiro, em determinado momento da entrevista, o médico conta uma história sobre uma mãe que levou a filha ao pediatra achando que havia algo errado com ela, este ligou uma música e os dois ficaram espiando a criança. A conclusão do médico foi: sua filha não tem nada de errado, ela é uma bailarina. E a menina cresceu e se tornou uma coreógrafa da Broadway. E eu fico olhando para o meu filho, que passa o dia a cantar, e me pergunto: será que não estou procurando pelo em ovo? Será que ele não é simplesmente um músico, por exemplo?

Observando seus gostos, o que salta mais aos olhos é inclusive a questão da música. Estamos planejando matriculá-lo em uma escolinha de música no próximo ano. Ele tem u violão e uma flauta. A flauta está aprendendo na escola, o violão o papai tentou ensinar, mas ele perdeu o interesse quando percebeu que o tempo com o pai dele poderia ser aproveitado de outras maneiras (brincando, basicamente). Na casa da vovó tem piano, e ele sempre toca quando vamos visitá-la; no sítio da outra avó tem bateria e guitarra, os quais ele também sempre quer tocar quando vamos lá. E a cantoria, essa é O-TEM-PO-TO-DO. A gente chega a ficar zonza.

Ele também gosta de escrever, ler, desenhar e pintar. Tem uma lousa onde costuma fazer "quadros", os quais ele me pede para fotografar e publicar no instagram. Senta comigo para colorir seus livros, enquanto eu "me coloco a colorir" (ah, a língua portuguesa que não permite algumas conjugações simplesmente porque não...) os meus. E acabou de escrever seu primeiro livro! De umas semanas para cá, costuma se sentar ao meu lado no escritório, pegar uma folha de papel, riscar com canetinhas 3 ou 4 linhas para fazer a pauta e escreve um pequeno texto (um ou duas frases). Cada texto ele me entrega para corrigir, coloca um "certo" ou "meio certo" a depender da quantidade de erros encontrados e ainda escreve um elogio (como a professora faz no caderno). Depois de juntar diversas folhas (14 textos e duas ilustrações), ele fez um desenho, sobre o qual ele colocou um título (escolhido com a minha ajuda) e seu nome, e me pediu para grampear.

O nome do livro é João e Seu Cachorrinho e Outras Histórias. Apreciem algumas delas:

"Lá vai quatro balões voando lá pro céu. Voou tanto que foi lá pro espaço. O menino conseguiu pegar 2 balões e não conseguiu pegar mais 2 balões do céu."

"Já foi dezembro. Hoje é dia 1° de janeiro de dois mil e dezesseis. Do que a gente vai brincar?"

"O cachorro amigo do João mora na casa do João. Ele brincava muito com o seu cachorrinho antes do almoço."

Outra coisa que me chama a atenção é como ele gosta de cozinhar. Ele costuma preparar sua própria salada de alface e tomate (corta, pões sal, orégano e azeite e mistura). Gosta de ajudar a preparar o almoço, ajudar a fazer pizza, massa de macarrão, etc. As primas têm um fogãozinho de brinquedo, no qual ele faz pratos para a família toda. E gosta de assistir Masterchef comigo.

Nos finais de semana que ficamos na cidade, ele costuma andar de bicicleta ou ir ao clube com o papai, assistir algum filme comigo, brincar (lego, massinha, o jogo físico do angry birds, bonecos de pelúcia, etc.) e jogar videogame. Também costumamos encontrar amigos em algum momento. No último final de semana, entretanto, ele não chegou a jogar videogame e sequer se lembrou dele.

Às vezes eu percebo que ainda tem algumas esquisitices nas suas conversas. Outro dia, por exemplo, encontramos o meu professor de yoga no clube:
- Olha o Zezinho! Quando você vai vir fazer uma aula de yoga de novo? - perguntou o professor.
- Você gosta de lego? - retrucou o garoto, sem tomar conhecimento da pergunta feita a ele.
- Como? Gosto... - respondeu o professor, sem entender.
Então o pequeno virou as costas e começou a ir embora.
- Ei, pelo menos fala tchau! - assinalei.
- Tchau! - disse ele, virando-se rapidamente para o professor e depois continuando a seguir seu caminho.

Certa noite, bem recente, fui colocá-lo na cama e ele disse:
- Vamos conversar?
- Vamos - respondi.
- Hoje eu fui na escola.
- Sim...?
- Eu brinquei com os amigos.
- Sim...?
- E eu fiz atividades.
Pois é. De repente ele regrediu para aquela conversa-roteiro de antigamente.

Além disso, ele até algumas semanas atrás ainda confundia "perguntar algo" com "contar algo". Então, inventei uma brincadeira: eu faço uma pergunta, ele faz uma pergunta, eu conto alguma coisa, ele conta alguma coisa. Depois de repetir essa sequência váaaaaaarias vezes, ele melhorou muito. Ainda hoje, de vez em quando, ele ameaça de usar "perguntou", no lugar de "contou" (ou o contrário), mas sozinho se corrige e usa a palavra certa. Mas ainda confunde um pouco o uso de "quem", "como", etc. Preciso fazer mais brincadeiras...

Enfim... Até o momento, noto uma melhora astronômica no último ano. Ele está mais falante, conversador, interessado, criativo e atento. O futuro dirá o que tudo isso significa.

28.10.15

compilação 2015

11 de fevereiro de 2015
O menininho não está entendendo porque a mamãe está chorando.
- É que é uma história triste - explicou a mamãe.
- O que é uma história triste, mamãe?
- É que faz a gente chorar.
- Então assiste outra coisa!

04 de maio de 2015
- Que ano o Zequinha nasceu? - perguntou o garotinho.
- 2012 - respondeu o papai.
- Ele nasceu antes de mim?
- Não, você nasceu em 2009, aí teve 2010, 2011 e ele nasceu em 2012 - explicou a mamãe.
- Nossa! Como eu sou grande!


08 de junho de 2015
- Filho, me desculpe por ter atrasado. É que tocou meu telefone e eu tive que atender, e distraída acabei indo pro lado errado. Quando lembrei que tinha estacionado o carro do outro lado da prefeitura, tive atravessar tudo de novo pra chegar no carro. E por causa da chuva estava o maior trânsito...
- Você foi para o lado errado?
- Sim, me distraí e fui onde eu sempre estaciono, mas hoje parei em outro lugar, bem longe.
- Você está precisando de um GPS, mamãe.

09 de julho de 2015
Teve reunião na escolinha. A professora reclama que o garoto não para de cantar na aula. Conta também que, certo dia, exausta de tanto pedir silêncio, disse a ele:
-Se você não consegue parar de cantar, então vá para fora, sente-se no banco e só volte quando terminar de cantar!
Para sua surpresa, em vez de baixar a cabeça e pedir desculpas, ele se levantou e saiu da sala. Depois de uns minutos, voltou:
- Terminei, professora - disse, muito tranquilo.


.....

- Hoje eu troquei adesivos com a Mariazinha. Papai, seus alunos trocam adesivos no final da aula? 


15 de julho de 2015
Ontem:
- Mamãe, amanhã é pra ir de fantasia na escola.
- E do que você vai?
- De Woody.
Ele tem uma camiseta apertada do Woody, com capa (???) que imita couro de vaca malhada, lenço vermelho para amarrar no pescoço e estrela de xerife.
Hoje, no carro:
- Vou voar hoje na escola, mãe.
- Voar? Por quê?
- Porque está ventando!
- Ah... E vai voar como?
- Com a capa, ué.

17 de julho de 2015
Alguns dias atrás, o menino disse que queria ser piloto de nave espacial. Hoje o assunto voltou:
- Eu vou levar todo mundo no planeta do Stitch!
- Oba! Que legal - disseram papai e mamãe.
- Mas quem quiser fazer xixi vai ter que vir fazer aqui na Terra... - divagou ele.
- Vir até aqui na Terra só pra fazer xixi? - perguntou papai.
- Sim...
- Por quê?!
- Porque lá não tem banheiro!


02 de agosto de 2015
- De novo essa roupa, mamãe?!
Quando o seu filho de 6 anos te faz essa pergunta, é porque já passou da hora de comprar roupas para a aula de yoga.

06 de agosto de 2015
Sabe aquele tipo de menino que a-do-ra o pai e quer fazer absolutamente tudo com ele? Então. Eu tenho um. Porém, hoje ele andava muito preguiçoso e disse que não queria sair com o papai.
- Por que não? - perguntei.
- Porque... porque... - ele engasgou um pouquinho, tentando pensar em uma resposta. - Porque eu quero ficar aqui com você. Porque eu te amo muito, mamãe!


25 de setembro de 2015
Mamãe estava gripada há dias. Dentro do carro, logo no começo de uma longa viagem de fim de semana, ela desata a tossir miseravelmente. Quando finalmente consegue conter a tosse, uma vozinha surge do banco de trás:
- Mamãe, joga fora essa doença! Eu não agüento mais escutar...
- Ah, filho, eu adoraria saber como jogar fora uma doença.
- Toma remédio então!


28 de setembro de 2015
- Mãe, vamos assistir Rock in Rio! - diz, se sentando para tomar leite. - Quando o meu amigo da escola crescer, ele vai ser astronauta, e quando eu crescer, eu vou ser cantor no Rock in Rio.
A mamãe coloca no Multishow, mas logo começam os resmungos porque ele queria ver o show do Hollywood Vampires.
- Olha lá, filho, o Elton John toca piano que nem o Paul (McCartney) - diz a mãe, tentando animá-lo.
- O Paul toca tudo - retruca o garoto. - Por que ele toca tudo?
- Porque ele é um músico completo.
- Eu vou ser um músico completo quando eu for adulto...

07 de outubro de 2015
- Amanhã, vamos brincar de restaurante faz de conta? - perguntou o garoto à mamãe.
- Vamos. E como brinca de restaurante faz de conta? - perguntou ela.
- Primeiro tem que escolher quem vai ser o chef. Se você for ser o chef, você vai ser o chef; se eu for o garçom, eu vou ser o garçom; se o papai for o cliente, o papai vai ser o cliente!

09 de outubro de 2015
- Sssss, au! - fez a mamãe.
- Porque você fez "sssss, au"? - perguntou o filho.
- Porque enroscou um fio de cabelo nos meus óculos. Arrancou!
- O que é fio de cabelo?
- Ah! Você não sabe o que é fio de cabelo?
- Não!
- O cabelo é formado por um monte de fios. A sua cabeça está cheia de fios de cabelo.
- E a sua?
- Também. Todos os cabelos são um monte de fios de cabelo.
- E os queijos que estão quentes*?
 


*Queijos quando quentes derretem e quando a gente puxa, faz um fio. Relações que só o meu maluquinho sabe fazer, rs. 

17 de outubro de 2015
- A cidade é um ser vivo?
- Não, a cidade tem seres vivos: os humanos, outros animais, plantas...
- Então por que a cidade faz aniversário?!

28 de outubro de 2015
- A professora me disse que o halloween é o dia do Santos.
- Não é do time de futebol que ela está falando, viu. É das pessoas santas - avisou a mamãe.
- Que pessoas santas?
- As pessoas que são muito boas, que fazem milagres... - explicou. - Sabe, existe uma lenda que diz que no dia das bruxas os mortos voltam e andam pela terra - continuou a mamãe, fazendo voz assustadora.
- E se os mortos voltassem? E se o biso* voltasse? - perguntou ele, sorrindo.

* Bisavô. No caso, o meu avô paterno, pois foi o que ele chegou a conhecer.

tentando entender, parte 4


Depois de me incomodar com a questão da alfabetização precoce da escolinha, depois de me horrorizar com os erros de português da coordenadora, depois de muito pesquisar, escolhemos uma nova escola para o Zezinho começar o seu 1° ano. Gostei do método de ensino, a turma é pequena e confesso que ter aula de música ajudou na minha escolha, pois temos um garotinho que gosta muito de música.

Mudar a escola não foi muito difícil. Quando contamos que ele iria mudar, ele reclamou um pouco, mas após explicarmos direitinho, ele passou a aceitar bem a ideia. Já no primeiro dia de aula, ele foi totalmente convencido. Adorou a escola, a professora e até os colegas. No início do ano ele ainda não sabia muito bem os nomes, ainda estava deslocado das brincadeiras. Antes de dormir, na hora de conversar sobre o dia, ele ainda tinha pequenos resquícios daquela resposta pronta que começou 3 anos atrás: começava sempre com "mamãe, hoje eu brinquei", mas depois que eu perguntava do quê, ele respondia a brincadeira do dia, depois ele sempre dizia "e fiz atividades", para então contar as atividades da escola. Era um roteiro de conversas, mas que atualmente já está praticamente diluído em uma conversa mais natural, na qual ele já me conta direto as coisas mais interessantes que ele viveu no dia (geralmente ele já sai da escola me contando alguma coisa).

Com relação às atividades escolares, em casa eu vejo que ele está acompanhando muito bem. A professora diz o mesmo. As reclamações dela inicialmente eram principalmente a respeito de uma certa cantoria desenfreada durante a aula, e por ele ficar pulando ao lado da carteira. Após algumas broncas, alguns brinquedos confiscados e muita conversa, na última reunião ela mencionou que a cantoria melhorou (ao menos ele para de cantar quando ela pede) e que a pulação parou por completo nos momentos em que ele deve ficar sentado. Entretanto, ela reclamou que muitas vezes ele ri quando leva bronca, o que gerou mais bronca. Além disso, ela salientou a melhora grande no entrosamento com os colegas, que pararam de reclamar (da cantoria e de pulação) e brincam mais com ele, e também comentou que ele tem melhorado muito com relação à comunicação: explica melhor as coisas que acontecem com ele, conta fatos e histórias com mais facilidade, está mais conversadeiro. Ainda não possui aquela facilidade de oratória comparado aos colegas, mas está melhorando bastante.

Tenho a impressão de que as colegas (são 9 meninas e 3 meninos na turma) gostam de cuidar dele. E do meio do ano para cá, eu também percebo cada vez mais que ele está entrosado nas brincadeiras. O pai dele tinha uma preocupação no começo do ano: ele conhece muita coisa que não é comum aos seus colegas, como o jogo de videogame Super Mario Bros, ou TV Colosso, Caça Fantasmas e coisas que nós gostamos de mostrar a ele da nossa infância. A preocupação era que isso dificultasse ainda mais o relacionamento dele com os colegas. Entretanto, ele fala tanto de seus gostos, que alguns colegas começaram a entrar na dele. Outro dia, no dia de ir à sala de vídeo, ele levou na escola o DVD da TV Colosso para mostrar para os colegas, e ele disse que todos gostaram.

Ele também gosta muito de um lego com tema de bombeiro que ele ganhou faz alguns anos, mas que ninguém mais tem ou conhece. Pois certo dia ele disse que brincou de lego bombeiro na escola. E eu não entendi, pois não era dia de levar brinquedo nem nada. Então, ele me explicou que uma das amiguinhas, ao ouvi-lo falar tanto desse lego bombeiro, inventou uma brincadeira em que cada um era um personagem (mamãe, papai, filhinha e bombeiros). O bombeiro foi o Zezinho, a garotinha que eu tenho a impressão que está apaixonada por ele foi bombeira também, assim como a garotinha que ele costuma dizer que será sua namorada ou esposa quando ele crescer. Fora isso, tentamos descobrir o que anda "na moda" entre as crianças, como brincadeiras ou um álbum de figurinhas, para que ele participe mais das conversas "normais".

Além da escola, ele continua no mesmo esquema de natação e judô. E continua indo à psicóloga. A neuropediatra solicitou uma série de testes para verificar as possibilidades de diagnósticos, que vão do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade até uma remota possibilidade de superdotação. Então, agora o estamos levando a algumas sessões com outra psicóloga que está aplicando estes testes.

Eu não falei antes, mas temos alguns amigos na cidade que possuem filhos alguns anos mais velhos do que ele. Uma menina de 11, um menino também de 11 e outro de 8 anos. Há algumas outras crianças um pouco mais novas, mas estas ele não encontra com tanta frequência. Recentemente também nasceu uma bebezinha. Ela e os três que mencionei primeiro são as crianças com quem ele tem mais contato fora da escola. Eles se dão muito bem, a menina adora ficar com ele, os meninos também gostam muito, ainda que tenham menos paciência. Eles se dão tão bem, que pessoas de fora já chegaram a me perguntar se eram primos e, pela proximidade, respondi que eram praticamente isso. E as primas por parte de pai, uma de 8 e outra de 6, como já mencionei antes, apesar de morarem longe, são disparado as melhores amigas dele.

22.10.15

tentando entender, parte 3


Em 2014, ele começou o Jardim II. Na escola, estavam ensinando a letra cursiva (de mão). Uma das coisas que me incomodou nessa escola e me fez buscar outra, inclusive, foi essa alfabetização precoce. Acho desnecessário, criança de 5 anos tem que brincar e socializar, muito mais do que se preocupar com caligrafia. Com essa idade, eu estava aprendendo a letra de forma e eu era a criancinha com idade adiantada da turma. Entretanto, eu só não me revoltava mais com isso, porque o Zezinho realmente gostava de aprender a escrever. E, provavelmente por isso, quando fui questionar o desempenho dele em relação aos outros alunos (afinal, ele pulou um ano), a nova professora me disse que ele estava indo tão bem ou melhor do que as crianças que vieram do Jardim I.

Vale lembrar que naquela época, ele tinha o costume de encucar com determinados assuntos. Era um comportamento meio obsessivo. Me lembro muito da fase dos pilares, pois acho que foi a mais longa. Certo dia, ele me perguntou o que eram aquelas coisas na garagem do prédio. Eu expliquei que eram pilares e, pronto, nasceu uma ideia fixa. Todos os dias ele ia até um dos pilares, falava sobre o pilar, perguntava do que era feito, quais as cores que era pintado. Quando entrava em casa, tentava identificar pilares na parede. No clube, procurava os pilares de concreto no banheiro enquanto tomava banho após a natação. E, claro, chegava para os coleguinhas, do nada, e desatava a falar sobre pilares (e os coleguinhas ficavam com aquela cara de "do que diabos esse moleque está falando?!). Teve outras fases marcantes, quando era menor, por exemplo, ele era encucado com Toy Story (o 2, especialmente), e este foi o desenho que ele mais assistiu na vida dele. Aliás, no aniversário dele de 6 anos, o tema que ele escolheu foi Toy Story, porque o carinho permaneceu, após a obsessão passar.

Falando em aniversário, nesse ano, comemoramos seus 5 aninhos na Disney. Passamos 11 dias em Orlando (contando chegada e partida) com vovó, vovô e titio, onde fomos em muitos parques. O Zezinho gostou muito! Ele conseguiu encontrar seu ídolo Buzz Lightyear, foi na loja do Lego (um de seus brinquedos favoritos), comeu muito cachorro quente e pipoca e vivia grudado na vovó querida. Apreciava tanto os brinquedos mais infantis e bobinhos, quanto aqueles mais assustadores e radicais, mas suas favoritas eram as montanhas russas (as que ele pôde ir).

...

11 de maio de 2014
- Seu pai já falou para você não carregar esse negócio pra lá e pra cá - disse a mamãe, em tom firme.
- Não fala assim! - respondeu o menininho. - Vai lá pro seu quarto! - continuou ele, vindo na direção da mamãe.
O menininho começou a empurrar o traseiro da mamãe, tentando levá-la para o quarto dela. Veio o papai com a cara fechada e parou no vão da porta, dizendo:
- Isso é jeito de falar com a sua mãe? Pode pedir desculpas!
- Desculpa, mamãe - respondeu o menininho, ainda empurrando a mamãe.
- Você pede desculpa mas ainda está empurrando ela?! - diz o papai, indignado.
- Não! - responde o menininho, de pronto, retirando as mãozinhas da mamãe, mas ainda atrás dela. - Eu só estou na fila!

17 de maio de 2014
- Então eu vou me arrumar para ir na casa do tio André... - disse a mamãe.
- Eu tenho que me arrumar? - perguntou o pequeno.
- Não, você está bonito assim.
- Eu estou bonito, lero lero lerooo! - saiu saltitante o garotinho. - Eu estou bonito, eu esto-ou!

19 de maio de 2014
- Mãe, o tio Lucas tem casamento? - perguntou o garotinho.
- Se ele é casado? Não, o tio Lucas não é casado. Quem não é casado a gente chama de solteiro.
- O tio Lucas solta? - perguntou ele, fazendo um gesto como se usasse um estilingue.
- Não... - respondeu a mamãe, rindo. - Tem mais a ver com estar solto do que com soltar alguma coisa. Ele não está preso a ninguém.
- Mãe, o bandido é preso?
Ixe.

26 de maio de 2014 
Sempre que o menininho diz que não quer mais comer, mas o prato ainda não está vazio, a mamãe faz um acordo: depois de mais 5 colheradas (ou 3, ou 10, a depender do quanto ainda tem no prato), ele está dispensado. Costuma haver uma negociação: 2 (ou 1, ou 5), diz ele; 4 (ou 2, ou 8), diz ela.
Mas o resultado costuma ser o mesmo: prato vazio, ou praticamente.
Dessa vez, o menininho estava doente e a mamãe não queria forçar, porque quando ele está doente e come forçado, ele costuma devolver tudo em seguida.
- Não quelo mais - disse o pequeno.
- Então coma mais uma colherada, a última - respondeu a mamãe.
- Uma? - retrucou de imediato, franzindo a testa.
- Uma.
- Uma? - perguntou novamente, inclinando a cabecinha.
Abriu a boca. Comeu uma colherada.
- Uma... - repetiu, antes de sair da mesa.

...

No meio do ano, eu o matriculei no judô. Desde então, toda quarta e sexta-feira, acordamos cedo, tomamos um leite com bolachas, o levo à natação, ele toma banho, come um lanche (no começo era um suplício fazê-lo comer esse bendito lanchinho) e depois vai ao judô. E eu ficava lá, olhando tudo. Observava, principalmente, como ele se relacionava com os outros meninos (na maioria ligeiramente mais velhos que ele, cerca de 1 anos). E o que eu via era um bando de meninos inventando brincadeira, e um Zezinho que não entendia a brincadeira, mas que percebia que quando todos riam, ele devia rir também, quando todos corriam, ele devia correr também. E, logo, começaram a chamá-lo de café com leite. O que me tranquilizava era que o outro garoto de 5 anos era quase tão perdido quanto ele, mas era menos hostilizado porque era um bruta garotão. O judô rapidamente se tornou uma atividade muito apreciada por ele, com toda a disciplina e técnica que envolve. No começo, ele rejeitava a ajuda do sensei, queria fazer todos os movimentos sozinho, como o resto dos colegas, mas em pouco tempo passou a aceitar muito bem a orientação. E não demorou a conseguir fazer tudo sozinho.
  
Nas poucas reuniões com a professora da escola, eu também a questionava sobre a socialização dele e ela dizia que ele realmente era mais distraído e gostava de brincar sozinho, mas que não achava preocupante. Porém, certo dia encontrei a tia Wanda (a professora que ficou dois anos no maternal com ele) e ela me disse que estava preocupada com ele. Ela disse que em seu tempo livre, por saudade, foi observá-lo e percebeu que aqueles comportamentos que ela notara dois anos antes ainda estavam muito presentes. Foi a tia Wanda quem me orientou, novamente, a procurar ajuda profissional. Me indicou a neuropediatra mais famosa da cidade e conseguimos uma consulta poucas semanas depois.

Na primeira consulta, a doutora conversou muito comigo e com o pai, examinou fisicamente o garoto e conversou um pouco com ele. Ela nos encaminhou para uma psicóloga para fazer uma avaliação, e disse que à primeira vista ele não tinha nada. Disse que só com aquele primeiro contato, ele não demonstrava nada fora do comportamento normal de uma criança, mas que pelo que contamos, ela achava que seria bom ter a avaliação.

A avaliação foi feita, de onde surgiu a primeira suspeita: desordem do processamento auditivo. Começamosas sessões com a psicóloga e procuramos uma fono, pois, mesmo sem o diagnóstico confirmado, poderíamos ir trabalhando a linguagem dele. A neuropediatra, tendo a avaliação em mãos, disse que qualquer diagnóstico só poderia ser feito após ele completar 6 anos, então remarcamos nova consulta para o ano seguinte.

...

01 de agosto de 2014
- Onde o papai está? - perguntou o menininho.
- O papai está trabalhando, na faculdade. - respondeu a mamãe.
- Quando o papai sair da faculdade, ele vai vir aqui pessoalmente!

25 de novembro de 2014
- A Joaninha tem uma borracha q parece uma mola - disse o pequeno.
- Quem é a Joaninha? - perguntou a mamãe.
- É a amiguinha da Aninha.
- Do Jardim 2 também?
- Sim.
- E quem são seus amiguinhos ou amiguinhas?
- O Paulinho, o Joãozinho, o Luizinho e a Mariazinha. A Mariazinha gosta de brincar de barbie e de transformers.
- Ah, é? Ela deve ser muito legal.
- É. Ela é uma menina muito especial?
A mamãe riu.
- Sim, filho. Acho que sim.
- Ela gosta de brincar com brinquedo de menino e de menina. A gente deixa ela brincar com brinquedo de menino.
- Que bom, tem que deixar mesmo. E você? Brinca com brinquedo de menina?
- Eu não! Só com brinquedo de menino. Meus amiguinhos também não. Mas a Mariazinha deixa.
- Que bom que ela deixa. Todo mundo tem que brincar com o que tiver vontade.
- Não tem problema, mamãe?
- Não tem. E tem algum amiguinho que brinca com brinquedo de menina?
- Sim, o Joãozinho. A Mariazinha deixa.
- Tem mais alguém?
- O Paulinho, e o Luizinho também.
- Com o que eles brincam?
- Com a barbie.
- E você?
- Eu também brinco com a barbie. A gente coloca ela na piscina da barbie com os transformers e coloca no carrinho e leva ela no carro dela pra garagem.
* Todos os nomes são fictícios. (Ah, vá!)

12.10.15

tentando entender, parte 2


28 de fevereiro de 2013
- Alá, quebrou o braço do Buzz! - disse o papai.
- Quebô o baço do Buzz...- repetiu o filhinho.
E, depois de já ter visto o filme trocentas vezes, os olhos do menininho se encheram de lágrimas, ele fez beicinho e abraçou o papai, com pena do patrulheiro espacial.

25 de julho de 2013
O menino desenha um coração bem feitinho na lousa.
- Tá lindo seu coração - diz a mamãe.
Ele apaga. Desenha outro, dessa vez com a ponta de baixo muito arredondada.
- Agora está parecendo uma maçã...
- Não é uma maçã - responde o pequenino, concentrado.
- Mas tá parecendo uma maçã - retruca a mãe.
- Tá palecendo um colação - finaliza ele, muito sério.

30 de julho de 2013
Na TV passa a historinha da lenda do guaraná: o indiozinho Aguiri se perdeu na floresta colhendo frutas, então, Jurupari, o deus da escuridão, o encontrou e o matou; mas Tupã mandou que os índios da aldeia plantassem os olhos do garoto e no lugar nasceu o guaraná.
A mamãe chega em casa e o menininho está chorando no sofá.
- Mamãe, perdeu o Guili... perdeu o Guili...

...

Entra 2013 e o Zezinho finalmente seguiu para o maternal 2. Esqueci de dizer antes, mas tanto nos anos anteriores como nesse, as professoras não notaram nenhuma dificuldade em acompanhar as atividades escolares.

O problema seguia sendo apenas a sociabilização e a linguagem. Ele parecia se interessar um pouco mais pelos amigos da escola, mas continuava se dispersando com facilidade. Chamo a atenção para o fato de que em nossa memória, ficou gravado que a partir dos 4 anos o nosso garoto finalmente pôde ser considerado uma criança que sabia falar. A evolução dele foi realmente considerável a partir dessa idade. Ainda assim, a fala evoluia, mas apenas o suficiente para que ele pudesse manter-se atrasado com relação aos colegas (alguns quase um ano mais novos do que ele).

No meio do ano, o matriculamos na natação. Ele amou! A turminha era da idade dele, alguns mais velhos. Uma das menininhas se apaixonou por ele, o abraçava e até beijava a bochecha. Os dois interagiam bastante na aula, mas era perceptível que era só porque ela realmente ficava no pé dele. Ele pulava e ela pulava também, ele falava e ela ria, e lá vinham os abraços. Ainda assim, graças a insistência dela, ele passou a ficar mais interessado na companhia dela com o passar do semestre. Chegando ao ponto de perguntar por ela quando ela faltava. Um grande avanço!

Também acho importante salientar que desde muito pequeno, ele sempre se deu muito bem com as primas: uma seis meses mais velha e a outra dois anos. Apesar da distância entre as cidades e de só podermos vê-las cerca de uma vez por mês, eles sempre foram muito apegados. As duas disputam a sua atenção e, assim como a amiguinha da natação, o conquistaram na marra logo cedo. Por isso, aos 4 anos de idade, ele brincava muito com as primas, com poucas ocasiões de dispersão.

No final do ano, aquela resolução que definia a data para a mudança do ano escolar baseada no aniversário finalmente havia caído. Então veio a dúvida: ele deve seguir para o Jardim I, ou pulamos um ano, já que a idade dele, de acordo com a definição tradicional (que voltou a vigorar com o fim da resolução), o colocava no Jardim II? Conversamos com a professora e esta disse que acreditava que ele não teria nenhuma dificuldade para acompanhar as atividades do Jardim II. Após longa deliberação, pensamos: como ele ainda não criou um vínculo muito grande com os colegas, vamos tentar!

8.10.15

tentando entender, parte 1

Coloquei meu filho na escolinha pouco antes de completar 2 anos, em fevereiro de 2011. Pela idade, contando da maneira tradicional (aniversário antes ou depois de junho), ele foi matriculado no maternal 1 de uma escolinha perto de casa. Nossa decisão de matriculá-lo foi baseada no fato de que não conhecíamos ninguém na cidade nova, então achamos que a escolinha seria o melhor modo de colocá-lo em contato com outras crianças e estimular a linguagem (com 2 anos ele falava muito pouco ainda)

Entretanto, não demorou muito para percebermos que não estava dando o resultado esperado. A professora, Tia Wanda, nos comunicava que a interação social dele era muito pequena, que ela tentava o tempo todo fazê-lo brincar com as outras crianças, mas ele sempre se afastava. Ele não necessariamente se recusava a brincar com as crianças, ele apenas não se interessava.

O vocabulário também não estava melhorando, muito menos sua habilidade em formar frases. Em casa eu tentava forçá-lo a falar, fingindo não entender quando ele apenas apontava alguma coisa, mas logo abandonei essa estratégia, pois percebi que apenas o fazia se irritar e se fechar ainda mais. Por exemplo, ele apontava o suco e eu perguntava o que ele queria, eu dizia que não estava entendendo, pois ele já conhecia a palavra suco, mas ele ficava tão irritado com isso que preferia deixar de beber o suco a ter que falar. Virou uma questão de não se render, de queda de braço. Desisti. 

Eu tentei outras técnicas, como apenas falar os nomes das coisas para ele ir aprendendo, fazer algumas brincadeiras de "como se chama isso?", mas a evolução na linguagem seguia arrastada. Ele tinha alguns picos de melhora, em que nós nos animávamos e pensávamos "agora ele vai deslanchar!", mas em seguida ele estagnava novamente.

Eu ficava aflita, pois via a linguagem como uma barreira. A maioria das outras criança já falava relativamente bem. O Zezinho (retomando seu apelidinho de quando estava na minha barriga) não conseguia fazer uma troca com elas, perdia o interesse e ia brincar sozinho. Não era um sozinho triste, do tipo ninguém me quer, ele realmente parecia não se importar em ficar sozinho. Era como se ele se esquecesse das outras crianças porque elas não eram tão interessantes quanto o que quer que fosse que estava passando dentro de sua cabecinha.

Revendo alguns vídeos de 2012, fica visível o quão quieto ele era. Falava muito pouco, apenas sobre coisas de seu interesse. Somente respondia quando era de seu interesse. Mas era amoroso, gostava de brincar e gostava de cantar. 

No ano seguinte, ainda estava em vigor uma resolução que estabelecia a data de aniversário da mudança de ano escolar para 31 de Março. Isso significava que se seguíssemos para o maternal 2, correria o risco de ele ter que atrasar um ano antes de poder entrar no primeiro ano. Por isso, achamos melhor atrasá-lo já. Assim, ele ficou mais uma ano no maternal 1, na sala da Tia Wanda. A mudança de coleguinhas passou despercebida por ele. 

Nesse ano, havia uma pequena melhora na linguagem. Nos vídeos, pude ver que ele ainda falava muito pouco, formulava frases rudimentares e destacou-se a cantoria, algumas imitações de cenas de Toy Story 2 e a dificuldade para fazê-lo comer (mas isso é pauta para outro desabafo). Aqui, aqui, aqui, aqui e aqui eu escrevi sobre alguns momentos dele. Já pode-se notar que ele formava pequenas frases e era possível estabelecer diálogos muito simples. Entretanto, ele continuava muito atrasado com relação aos colegas da escola. 

Muitos conceitos ele simplesmente não compreendia, e era muito difícil entender o que ele queria, ou descobrir o que ele fez na escola. Chegou um momento em que ele percebeu que ficamos muito felizes porque finalmente ele disse que pintou na escola, e disse o nome de alguns coleguinhas. Então, para me agradar, todos os dias ele dizia que pintou na escola e recitava o nome dos colegas. Logo vi que isso virou uma resposta padrão, mais porque ele achou que isso ia me deixar feliz do que porque ele tinha entendido o que eu realmente queria saber. Então, não importava o que ele tinha feito e quem tinha ido à escola naquele dia, ele ia me dizer que pintou e que tinha visto exatamente as mesmas crianças.

Ele estava com mais ou menos três anos e meio quando a Tia Wanda sugeriu que o levássemos a uma psicóloga conhecida dela. A moça trabalhava em um posto de saúde e não era especialista, mas nos ouviu, conversou com o Zezinho e observou seu comportamento. Ficamos lá durante uma hora e ela sugeriu que esperássemos mais um pouco antes de procurar um especialista, pois ele ainda era muito novo para conseguirmos um diagnóstico. Ela sugeriu, inclusive que poderia não ser nada, apenas um atraso um pouco acima da média em seu desenvolvimento.

Depois desse dia, ficamos mais tranquilos por um tempo, mas logo voltamos a nos preocupar. O tempo passava e a situação evoluía muito lentamente.

 ...

20 de dezembro de 2012
Tinha 3 anos e trouxe um peixinho da escola pouco antes de entrar de férias. Demos um nome: Ringo.
Certo dia, diz o garotinho, com dedinho em riste apontando para o Ringo:
- Não pode fazer xixi aí.

7.10.15

partos

Eu vejo toda essa discussão sobre partos. Quase um embate, às vezes. E eu tenho uma opinião bem formada a respeito, mas não gostaria que ninguém interpretasse como uma tentativa de ser dona da verdade, ou de diminuir outras opiniões e/ou mães.

O fato é que eu tenho uma coisa dentro de mim que define muito claramente o que significa, em especial, o momento de dar à luz. Eu acredito que na vida de mamães e papais, existem inúmeros momentos em que poderemos exercer nossa influência, autoridade, sabedoria. Que nós é quem sabemos, na maioria das vezes, o que é melhor para os nossos filhos. Que, em algumas situações, poderemos inclusive colocar nossas necessidades em primeiro lugar. Entretanto, o momento de dar à luz não é um desses. Se existem situações em que um filho sabe melhor do que seus pais o que é melhor para ele, essa é A situação primordial. 

Por isso, no meu íntimo, sinto que o parto deve ser decidido pelo bebê. Não pela mãe, pelo bebê. Geralmente, essa decisão será sinalizada na forma de muitas contrações e de uma bolsa rompendo. E que aguentar a dor sentida é o mínimo que eu posso fazer em respeito a essa decisão tomada por ele. Ser mãe não é fácil, passar pelo parto provavelmente será fichinha perto de tudo o que precisará ser enfrentado e resolvido após esse momento crucial. Deixemos o bebê sair do nosso aconchego quando ele sentir que está preparado.

E, antes que minha mãe venha correndo me consolar pelo parto do meu filho, já adianto: o meu parto cesárea não necessariamente se exclui do que falei até aqui. Eu tenho plena convicção de que não há nada mais que eu pudesse ter feito em favorecimento do meu filho que eu não tenha feito à época de seu nascimento. E, diante da situação, ele soube se aprontar para a sua saída às pressas e, de certa forma, saiu quando bem entendeu. Ei, esse lugarzinho já não me serve pra nada, não tô crescendo, minha mãe tá na bad... Vamos descolar essa placenta sacana e dar um jeito de correr pra fora daqui onde eu possa mamar meu leitinho. E, pá pum. Duas horas depois ele estava de boas "pegando uma corzinha".

Sou magricelinho, mas quem resiste ao charme desses "óculos de sol"?
(na foto parece trágico, mas ele realmente estava muito bem de saúde! juro!)

- Ah, mas você não faz ideia da dor do trabalho de parto. Para você é fácil falar - você me diria. 

- Talvez - eu responderia. 

Ainda assim, eu realmente acredito nisso. E sem desmerecer minha mãe, ou qualquer outra pessoa cuja historia tenha sido diferente, ou cujas convicções sejam outras. São mães, tanto quanto eu. Somos todas mães, tanto quem teve parto natural, ou humanizado, ou cesárea, ou cesárea programada. Os tempos mudam, as pessoas mudam, até eu posso mudar. Nunca se sabe.

E, não. Não estou grávida, rs;